CADERNOS ECOAMA
Natureza • Alquimia • Ciência • Bruxaria
O que significa ser bruxa em 2026?
Por Isabela Leal
Fundadora da Ecoama • Química • Espagiriata-Alquimista
Ser bruxa em 2026 é, em essência, como ser bruxa em qualquer época. Cada tempo, porém, apresenta suas próprias circunstâncias. Atualmente, temos uma liberdade de expressão e de prática religiosa que, em muitos momentos da história, foi cassada.
Ser bruxa é cultuar a Deusa Mãe através da Natureza. É honrar os ciclos orgânicos que permeiam todas as formas de vida. É conhecer as propriedades das ervas medicinais e saber manejá-las e administrá-las com conhecimento e responsabilidade. É tudo isso junto. Mas é, principalmente, trabalhar sombra e luz.
As práticas de magia acompanham a humanidade desde tempos muito antigos. Ao longo da história, porém, nossa relação com o sagrado foi sendo transformada. Para mim, uma das transformações mais profundas ocorreu quando o Divino passou a ser percebido como algo separado da humanidade e da própria Natureza.
Deus e Deusa, Deuses e Deusas são diferentes formas de representação do sagrado. Cada pessoa pode nomeá-lo e cultuá-lo de diferentes maneiras. Mas, quando retiramos o Divino do interior do ser encarnado, retiramos também dele a possibilidade de reconhecer em si uma dimensão sagrada — uma potência que pode ser trabalhada e magnificada em benefício da cura, da transformação e da vida.
Talvez aí resida uma das grandes rupturas da história humana: quando o ser humano deixa de se reconhecer como parte da Natureza e passa a se perceber separado dela.
Chegamos ao ponto de a própria medicina contemporânea voltar a reconhecer algo que povos tradicionais sempre souberam: o contato com a Natureza pode participar do cuidado com a saúde física e mental. Hoje existem, inclusive, práticas conhecidas como prescrições de natureza ou prescrições verdes, nas quais o contato com ambientes naturais é incorporado como prática complementar de promoção da saúde.
O que estamos vendo recentemente é também um resgate de práticas de bruxaria, de tradições ligadas à Natureza e do culto ao feminino divino. Práticas mágicas, rituais, divinatórias e de cura acompanham diferentes sociedades humanas desde tempos muito anteriores à ascensão do Cristianismo.
Se no Cristianismo existe Deus, na Bruxaria existe a Deusa e seu consorte Cornífero, que na minha prática, eu também gosto de chamar de Deus.
A Deusa está em tudo o que é sagrado na Terra: no ar, na água, no fogo, na terra e dentro de cada ser encarnado que a invoca. O Deus cristão também é compreendido por seus fiéis como estando em todo lugar e presente naqueles que praticam sua fé.
Logo, Deus e Deusa podem ser compreendidos como manifestações ou diferentes formas de acessar aquilo que, para mim, é o Uno: uma inteligência universal e soberana.
No fim, talvez não importe se alguém o chama de Deus, Deusa ou por outro nome. Mas importa profundamente a maneira como cada pessoa reivindica e pratica sua fé.
A Deusa Mãe da Bruxaria é cultuada na Natureza e através dos elementos naturais. O Cristianismo institucional, por sua vez, construiu ao longo da história grandes templos para o culto a Deus — alguns deles cobertos pelo ouro e pelas riquezas acumuladas durante processos históricos marcados também por conquista, exploração, violência e desigualdade.
Há uma contradição que sempre me provoca.
Jesus, o mensageiro de Deus para os cristãos, viveu grande parte de sua trajetória em contato com a Natureza. Caminhou entre montanhas, desertos, rios e oliveiras. Suas palavras não dependiam de templos revestidos de ouro. Ele próprio pregava uma conexão direta com Deus — aquilo que eu, a partir da minha própria compreensão espiritual, também posso chamar de Uno ou consciência suprema.
Por isso, minha crítica não é à fé cristã.
É à separação entre o ser humano, a Natureza e o sagrado.
Quando práticas ligadas ao feminino Divino, à Natureza, à magia e à intuição foram condenadas, algo importante também foi desvalorizado: uma forma de conhecimento que não nasce exclusivamente da razão.
A intuição rege regiões profundas da nossa experiência. Ela dialoga com aquilo que não é imediatamente racionalizado, com o inconsciente, com a sensibilidade e com nossa capacidade de perceber antes mesmo de formular.
Razão e intuição não precisam ser inimigas.
Ao contrário.
A razão sem sensibilidade pode transformar-se em instrumento de condenação e julgamento. A intuição sem discernimento também pode nos enganar. Talvez a sabedoria esteja justamente na capacidade de fazer com que uma ilumine a outra.
A religião da Deusa acolhe o trabalho com o inconsciente e o encontro com as sombras que existem dentro de todos nós.
Luz e sombra.
Não existe ser humano constituído apenas de luz.
E talvez uma das tarefas mais difíceis de qualquer caminho espiritual seja justamente reconhecer a própria sombra em vez de projetá-la sobre os outros.
No mundo atual, o resgate da Bruxaria depois de séculos de perseguição, condenação e morte de pessoas acusadas de práticas mágicas representa, para mim, um alívio. Hoje existe liberdade para que cada pessoa pratique sua fé, e essa liberdade também é um direito sagrado.
Mas a liberdade traz consigo uma responsabilidade.
Hoje vemos também falsos pregadores, falsos mestres e pessoas que utilizam a espiritualidade para exercer poder sobre outras pessoas. Isso independe da religião. Sempre existiu. A diferença é que, atualmente, os meios de comunicação conseguem magnificar uma voz em uma escala que outras épocas não conheceram.
Por isso, talvez nunca tenha sido tão necessário desenvolver discernimento.
E discernimento exige estudo.
Estudo disciplinado, prática, observação, experiência e capacidade de questionar até mesmo aquilo em que acreditamos.
Para mim, estudar o sagrado não significa afastar-se dele. Significa aproximar-se com consciência.
E, quanto mais estudo, mais retorno a uma ideia muito simples: o sagrado não precisa estar distante.
Ele está dentro de cada um de nós.
Deus ou Deusa, como cada um quiser chamar, é o Uno.
E, na prática comum da vida, talvez uma das maiores manifestações do Divino esteja justamente naquele que pratica a caridade, que não faz da acumulação de riquezas o sentido da existência e que é capaz de amar o outro independentemente da fé que ele escolheu seguir.
Pensamentos de uma Bruxa
Uma série de textos de Isabela Leal sobre Natureza, Bruxaria, alquimia, ciência e as diferentes formas de compreender o sagrado.