Coloco-me em meu lugar de fala para abordar este tema, pedindo licença aos grandes mestres, magos e bruxas que trabalham a arte de transformar a matéria em remédio. Mestres que praticam essas artes em um nível de conhecimento que não é conhecido por mim. Logo, coloco-me em meu devido lugar: como uma iniciada nas artes ocultas que caminha por uma estrada ainda muito desconhecida, que é a Espagiria.
A maioria dos químicos da atualidade não são espagiristas e muito menos alquimistas e, vice-versa, a maioria dos espagiristas e alquimistas de hoje não são químicos, mas estudiosos da Natureza. Eu não sei nada sobre Alquimia, que é, dentre todas as demais, a arte que lida com aspectos ocultos em um alto grau, para além das práticas de separação e purificação da Química e da Espagiria.
Até onde ouvi, os alquimistas tinham como propósito de estudo o elixir da longa vida e a pedra filosofal, o que é surreal, mas é real mesmo. No que me é mais palpável, falarei aqui sobre as diferenças entre Espagiria e Química.
Tanto a Química como a Espagiria estudam a matéria, sua estrutura, propriedades e transformação. Agora mesmo chamo atenção: Química é, sim, uma ciência, mas Espagiria não é ciência, e sim uma aplicação prática.
Focando na área da Química que estuda plantas medicinais, a Química estuda princípios da matéria a partir de medições instrumentais e avalia seu beneficiamento, seja por síntese orgânica ou isolamento de compostos de interesse. Em oposição, a Espagiria aplica princípios da própria Natureza sobre a matéria, a fim de obter os princípios da matéria purificados e então reuni-los em um remédio.
Tanto a Química quanto a Espagiria podem separar o puro do impuro, o joio do trigo, na matéria em estudo — ou seja, realizar separação e purificação. Porém, tais técnicas empregadas na Química não são muitas vezes viáveis quando se fala de escalonamento de remédios.
Logo, o caminho mais sensato na Química seria o isolamento de compostos ou a síntese de compostos de interesse de uma determinada matéria orgânica.
Não temos como comparar nem mesmo a Espagiria com áreas da Química que atuam no beneficiamento de produtos medicinais a partir da matéria bruta de uma planta medicinal. Mesmo que os processos sejam parecidos, não o são as técnicas empregadas.
A Química utiliza meios de obtenção rápidos e rentáveis, como, por exemplo, a extração com CO₂ supercrítico, sem necessariamente haver posterior purificação da fração obtida. Enquanto na Espagiria se faz, além da destilação do óleo essencial, também a purificação desse óleo, a fim de separar o resquício do corpo que ainda se apega à alma — representada pelo óleo essencial em uma planta aromática na Espagiria.
O labor na obtenção de um medicamento por Espagiria será maior que o labor empregado em muitos processos químicos voltados à obtenção de um produto de interesse. Na Química aplicada à produção, busca-se frequentemente eficiência, rendimento e redução do tempo de processo.
Em contrapartida, na Espagiria observa-se, através da prática guiada sob a instrução de Paracelso, que bebeu da fonte da filosofia hermética, que cada matéria vegetal tem o seu tempo; que as condições externas precisam ser devidamente observadas e controladas; e que isso, de preferência, deve ser feito por fontes naturais, como a Lua e o Sol, a água e o fogo.
Diferentemente da Química, toda matéria orgânica trabalhada na Espagiria é honrada como detentora de corpo, alma e espírito e, assim como um ser humano, precisa ser cuidada com amor e carinho.
Se na Química se extrai o óleo essencial e o álcool de uma planta, na Espagiria se separa a alma, que é a fração purificada do óleo essencial, e o espírito, que é a fração purificada do álcool da planta.
A purificação do corpo, da alma e do espírito de uma planta é feita na Espagiria para separar as partes mais densas que ainda se agarram a cada um dos princípios herméticos: sal, enxofre e mercúrio.
Esses são os princípios da vida ligados à verdadeira essência de cada matéria, sem ilusão, sem escassez, sem apego.
Tais princípios, quando reunificados, constituem a Quintessência da matéria: uma medicina que, dentro da compreensão espagírica, é capaz de penetrar campos além do corpo físico e mental, alcançando também o energético e o espiritual.
Solve et Coagula é um princípio da Espagiria que significa o ciclo de transformação pelo qual toda matéria passa na jornada do autoconhecimento. Esse mesmo princípio é aplicado sobre toda matéria trabalhada na Espagiria.
Eu sou química e digo veementemente que só comecei a compreender a matéria e as transformações da matéria quando iniciei a prática da Espagiria.
A Química é uma ciência na qual me perdi em conceitos compartimentados, enquanto, na Espagiria, eu me encontrei na Natureza através da prática criteriosa, embebida na filosofia dos princípios herméticos que agem sobre toda e qualquer matéria.
A Espagiria, para mim, é um caminho no qual as plantas me ensinam, de tal forma que compreendo minhas afobações e, num erro ou outro, sinto a ação do hermetismo sobre mim também.
Logo, entre a Química e a Espagiria, eu fico com a Espagiria.
E estou certa de que sempre estarei percorrendo esse caminho, aprendendo e apanhando sempre, porque, nesse caminho, não é o dinheiro quem comanda, mas sim o tempo.
E o tempo exige o reconhecimento do peso que carrego, exige que eu separe o joio do trigo e abandone crenças limitantes.
Tudo isso as plantas vivem e nos ensinam dentro do laboratório de Espagiria.